Segunda parte da história
O problema nunca é dormir mal, é saber que o sono chega sempre com o raiar do Sol. O Pedro chega ao trabalho depois da rotina matinal atribulada senta-se finalmente para começar a trabalhar.
Trabalhar acalmava-o, entrava num ritmo constante e as tarefas tornavam-se mecânicas. Conseguia finalmente pensar.
O escritório onde ficava não tinha qualquer decoração além da que estava no dia em que chegou. Tinha sempre a mesa devidamente arrumada, com os documentos organizados por prioridade e seguindo um esquema próprio de organização. Atrás da cadeira, um armário tinha várias prateleiras de dossiers vermelhos com as respectivas etiquetas impressas e coladas meticulosamente.
Na hora de almoço sai e dirige-se ao restaurante de sempre, onde já o conhecem e onde já não pede a lista. Senta-se, almoça e regressa ao escritório. Não bebe café por não gostar de qualquer tipo de estimulante, não fica para conversar com os colegas nos corredores, limita-se a ir directo à secretária e senta-se para retomar o trabalho.
Mas o cansaço é demais.
O que supostamente seriam dois segundos de olhos fechados transformaram-se em horas. Acordou ainda sentado e com dores no estômago e uma enxaqueca. Não era uma situação completamente incomum, tinha sempre um digestivo pronto numa das gavetas para estas ocasiões.
A única solução era aguentar o resto do dia e chamar um taxi para evitar a caminhada até casa. Ao telefonar olha em redor "afinal o dia foi produtivo, não pensei ter despachado tanto serviço durante a manhã...".
Quando finalmente chega a casa, acabada de arrumar pela empregada, só tem forças para se sentar na sala depois de encomendar o jantar.
No dia seguinte já se sentia melhor, era sábado. Sábado é o dia de ajudar a associação de apoio social do bairro. Entre fazer a contabilidade e apoiar as iniciativas sempre ia tendo contacto com algumas pessoas em quem confiava.
Um deles era o Miguel. Desempregado há vários meses, ganhava a vida procurando biscates e a trabalhar nas poucas construções que se faziam pela zona. Sendo alguém que tinha passado por tanto era de admirar que estivesse sempre de bom humor. Quando o Pedro ia almoçar depois de ajudar na associação, era costume jogarem às cartas.
Para eles era bastante agradável passar uma tarde assim, no meio de conversa e de cartas. Enquanto partilhava o relato da semana, o Pedro olha para os três reis que tinha na mão.
— Pedro, que andavas a fazer há dois dias no bairro do Cruz?
— No bairro do Cruz? Não era eu de certeza. Dá-me duas cartas e subo.
— Eras sim! Estava escuro mas eras de certeza tu. Pago para ver.
— Escuro?! Tenho ficado as noites em casa, acho que estou meio doente porque no dia seguinte acordo indisposto. Toma um par de 10 e quero ver melhor.
— Duas senhoras! Podia jurar que eras tu, mas tudo bem se calhar era alguém parecido. Tenta é ver se não adoeces ou eu fico sem companhia para jogar às cartas.
— Ando a ficar velho pá. No outro dia adormeci no escritório e tudo; por sorte ninguém entrou.
— Vê lá isso então que nunca te vi assim. Além disso trabalhas demais.
Quando ao final da tarde o Miguel se despediu, o Pedro deixou-se ficar na mesa da tasca a beber ginginha e a anotar as tarefas da semana seguinte num caderno. Era de tal forma meticuloso que depois de escrever não relia, ficava tudo na memória. Enquanto estruturava a semana, o dia fugiu sem que ele tivesse noção das horas.
Voltou para casa a pé e um pouco mais satisfeito. A escola estava prestes a começar e com o dinheiro que tinha perdido, o filho do Miguel ia poder ter os livros e o material escolar de que precisa.
Ao chegar ao prédio, a porta do átrio abriu-se de repente. Teve escassos segundos para se desviar e ver passar um tufo de cabelo ruivo.
— "mas que raio?..."
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